


Aqui você lê o que Alex Saba escrevia para a coluna AUDIÓFILO da revista Teclado & Audio, mas agora você vai ler muito mais e não só sobre teclados. Aproveite. Boa leitura.



Para o áudio, escolhi uma música que teve também uma versão em Português. O título original é LA POPÈE QUI FAIT NON que na versão do QUELLI virou UNA BAMBOLINA CHE FA NO NO NO. Não lembro quem gravou isso por aqui, mas é coisa do tempo da Jovem Guarda (Oops!!). O copyright indica o ano de 1966, o que me leva aos meus oito anos de idade, mas isso deve ter sido regravado aqui em 1967 ou 1968. O que me fez pensar: não era só aqui que se faziam músicas bobinhas...
QUELLI era um quarteto integrado por FRANCO MUSSIDA (guitarra e vocal), FRANZ DI CIOCCIO (bateria), FLAVIO PREMOLI (teclados) e GIORGIO PIAZZA (baixo). Na capa, aparece um quinto integrante, mas não tenho indicação de quem seja. Na Itália (e no mundo) nessa época, o sucesso estava atrelado a versões e “a um vocalista rebolativo que chamasse a atenção das fãs” (palavras do DI CICCIO), mas o I QUELLI era uma exceção. Estavam preocupados com o conteúdo musical do que tocavam (e não tinham um vocalista rebolativo). Como resultado disso, freqüentavam muitos estúdios de gravação acompanhando cantores como LUCIO BATTISTI, MINA, CELENTANO e FABRIZIO DE ANDRE. Além disso, eram chamados também para fazerem as gravações das bases de outras bandas italianas, como EQUIPE 84, DIK DIK e CAMALEONTI.
(destacando Marc Bonilla)
Alguns anos atrás eu comecei a reunir álbuns de natal. Não sei bem como isso começou, mas achei interessante como certos músicos (re)interpretavam músicas mais do que conhecidas. Foi mais ou menos assim que cheguei nesse disco do Keith. Mais ou menos porque desde que o trio Emerson, Lake & Palmer deixou de produzir trabalhos inéditos, procurava por coisas dele. Isso foi em um tempo sem a internet, quando achar um álbum de qualquer um que não estivesse na parada de sucessos era um sofrimento. Mas isso é passado.
Em uma pesquisa que você mesmo pode fazer você vai encontrar o seguinte: “Depois de dois discos solo (um EP e um CD completo) abaixo de sua capacidade, a vocalista Mary Fahl, na minha opinião, a alma do OP, estava mais perdida que pum em bombacha. A única coisa que tinha como certa é que queria um repertório mais forte, que trouxesse paixão e grandiosidade. Seu empresário, Steven Saporta, entrou em contato com o produtor David Warner com a idéia de fazer um disco de covers, mas Warner teve uma idéia mais ousada: reinterpretar um único disco clássico, do começo ao fim. O projeto, desafiador por si só, ganhou um peso ainda maior quando Warner e Fahl escolheram o disco a ser recriado, nada menos que The Dark Side Of The Moon, a obra máxima do Pink Floyd, que passou nada menos que 14 anos consecutivos na lista de 200 discos mais vendidos da Billboard e é o quinto disco mais vendido de todos os tempos. A princípio, Mary assustou-se com a ambição do produtor: “Ele (o disco) é como o Cálice Sagrado, uma obra de arte danada de boa, muito mais que o produto de uma época” - declarou.”
Dito isso, você está situado na história do disco, então vamos nos aprofundar mais um pouco. O trabalho é totalmente inesperado, principalmente por ser fruto de 3 pessoas: a cantora Mary Fahl, o produtor David Warner e o guitarrista e tecladista Mark Doyle. Contam por aí que os três compartilhavam certa desilusão com os caminhos da música pop e profunda admiração pelo disco do Floyd. Eles entraram no estúdio de Doyle para gravar "Us And Them" e o resultado inicial foi tão bom que resolveram iniciar o projeto.
Um novo disco do Tempus Fugit é sempre recebido com expectativas. Tudo começa com a bela arte gráfica de Bernard, atual e enquadrada no contexto do álbum, mas depois ou enquanto, nos deliciamos com o visual, colocamos o CD e logo uma explosão acontece. Uma cortina de sintetizadores, à la Vangelis/Moraz, abre o disco. Uma frase do baixo anuncia a parte II de “Pontos de Fuga” e a participação efetiva do quarteto. A gravação está excelente. Ponto pra Anderson Costa e Luiz Tornaghi, respectivamente Engenheiro de Som e responsável pela masterização. “Ponto de Fuga” é a música exata pra abrir o CD, mostrando uma boa pegada da banda e essa “pegada” continua em “Unfair World”, que traz um clima diferente, um pouco mais suave, mas a guitarra de Henrique Simões não deixa a música se perder. Aparentemente ele e Ary Moura (bateria) são os responsáveis por puxar a música pra cima, mas é impossível deixar de comentar que o baixo de André Ribeiro mantem-se honradamente ao fundo, sem perturbar ou distrair, funcionando como boa ancora do todo. Essa é uma das músicas cantadas do disco, mas não se deixe abalar, a qualidade instrumental é tão boa que você não vai exigir mais deles. Supertramp nunca teve um grande vocalista e era ótimo. Mas o excelente tecladista, não é um mal cantor. O vocal é correto e talvez aí esteja o detalhe. Eles esbanjam técnica e intimidade nos instrumentos, mas falta (ou fez falta) um vocal com mais personalidade, não aqueles vocais femininos operísticos que estão em moda. O som do Tempus Fugit pede algo bem próximo do que eles tem e pensando bem, é melhor deixar como está. Henrique dá belas choradas com sua guitarra aqui, onde aparece o discreto violão de André Ribeiro. Algumas passagens em uníssono de piano e guitarra, principalmente os compassos finais, são memoráveis. “Only to be with you” já começa com andamento acelerado, sem dar descanso aos músicos. Como sempre, bons solos de uma guitarra bem timbrada e de um Moog afinado (oops, André avisa na capa que o Moog estava “doente”, portanto alguém bem parecido tomou seu lugar). O clima muda para a entrada dos vocais e logo a guitarra puxa tudo pra cima novamente, não deixando o romance ficar nem adocicado nem enjoativo. Essa faixa tem 10m e não é a maior. Num contexto assim, seria fácil perder o rumo, mas não acontece. O solo de baixo, perto do fim, foi uma maneira bem interessante de mostrar isso.
Rick Wakeman é uma referência para qualquer tecladista. Chamado por alguns de “mago dos teclados”, é na verdade um tecladista com formação clássica que no início dos anos 70 aventurou-se pelo rock com grande sucesso. Sua participação no grupo YES foi decisiva para o som sinfônico que eles buscavam. Em uma entrevista revelou que sua função na banda era “apenas embelezar as músicas” dos outros. Declaração modesta e verdadeira. Como tecladista de apoio é um dos melhores, mas a maioria dos seus discos solo acaba decepcionando. Sua estréia com o instrumental “Six Wives...” chamou a atenção para o até então jovem e desconhecido, tecladista do YES. Seu projeto seguinte “Journey to the Center of the Earth” fez mais sucesso, unindo uma orquestra sinfônica e um coral a um grupo de rock, mas as melodias e as letras deixavam a desejar. “King Arthur” seguia a mesma fórmula, mas as melodias e letras estavam mais entrosadas e apesar de não ter feito o mesmo sucesso, musicalmente é superior ao segundo. Quando ele lançou “No Earthly Connection” houve um grande alarido dos fãs que sentiram falta da orquestra e praticamente da megalomania dos dois projetos anteriores, mas a música se sustentou. Vou parar aqui e dar um salto pra 2007 com o disco em questão: “Out There (In Space)”.
A banda HTM foi criada nos anos 70 em pleno furacão dos movimentos ART-ROCK, FUSION e progressivo. Ela tornou-se uma lenda mesmo com apenas dois discos lançados oficialmente porque dentre outras coisas, o tempo mostrou que sua música era mais do que um furacão passageiro ou um modismo. O site do grupo descreve sua música como além deste mundo. Não iria tão longe. Diria que a banda é sincera o suficiente pra fazer aquilo que gosta de modo convincente. “The Muse Awakens” é o álbum de retorno após longos 25 anos de ausência. Várias bandas retornaram nos últimos tempos mais como uma pálida sombra do que eram nos tempos de glória, mas não é isso o que se ouve nesse disco.
Chick Corea é um talentoso e prolixo músico. Sabe como poucos estar em vários estilos e formatos, praticamente sabe estar em vários lugares ao mesmo tempo. Não é surpresa que ele apareça compartilhando um disco com o banjoísta Bela Fleck, afinal Bela é que flerta com o Jazz desde seus primeiros discos com os Flecktones. Corea já tinha participado de um disco solo de Fleck, portanto parece mesmo algo natural. Talvez surpreendente mesmo seja o duo de piano e banjo.
McCoy Tyner é um grande pianista que dispensa apresentações. Todos os seus álbuns são ótimos, mas esse em particular me traz grandes lembranças. A maior delas foi a de ter descoberto o violinista John Blake exatamente aqui. Entretanto, esse é um disco singular por muitos motivos. As composições de Tyner aqui tem um desenvolvimento um pouco diferente. Peguemos por exemplo a faixa de abertura. Horizon possui uma cadência forte e acentuada, repleta de sincopadas do piano do líder e ótimos solos de Joe Ford no sax alto e de John Blake no violino. Apesar da levada jazzística e da condução soberba de Al Foster na bateria, os improvisos sobre uma das figuras rítmicas do tema não era muito característicos dos discos de Tyner. Apesar do timbre do violino de Blake lembrar o de outro grande violinista, o francês Jean Luc Ponty, seu som é um pouco mais “sujo” sem se valer de recursos eletrônicos. Guilherme Franco também está presente com um curto solo de congas. O tema é de colar no ouvido e de se ficar assobiando, magistralmente exposto pelo líder e Blake, com acentuações dos metais integrados por George Adams Além do já citado Ford.
"Woman of Tomorrow", a segunda faixa abre com Tyner seguido por Blake na exposição do tema. Aqui o violino é daqueles “de chorar”, lembrando as melodias de Piazzola. Após a dramática abertura, Blake interpõe improvisos ao tema acompanhado por Ford e Adams nas flautas. Em Motherland destaca-se o baixo de Charles Fambourgh que começa sozinho aparentemente mostrando o tema, mas que na verdade é apenas uma cadência para os solos dos companheiros. Tyner faz o último solo em uma faixa repleta de energia. Uma rumba em levada rápida seria One For Honor. Pelo menos ela começa assim, novamente com o baixo de Charles. O tempo rápido é tudo o que Tyner precisa pra improvisar. Como aqui há só o trio piano baixo e bateria, fica fácil perceber a independência entre as mãos de Tyner, dando aquela gostosa sensação de dois pianos. Just Feelin’ é a última (no LP original) e poderia ser apenas “sentimento”, mas há muita técnica envolvida aqui, tanto na maestria de Tyner quanto no sax de Adams. O CD traz uma faixa bônus. Uma versão alternativa de Horizon. O disco foi magistralmente produzido por Orrin Keepnews, que revela no encarte alguns detalhes de como funcionava seu pequeno selo nos idos anos 70. Entre outras coisas, descobrimos que não há mais faixas extras porque as músicas foram gravadas direto, em apenas uma tomada. Muito, mas muito diferente dos discos superproduzidos e repletos de overdubs de outros artistas, até mesmo jazzísticos. Horizon tem quase 30 anos mas poderia muito bem ter sido produzido no mês passado ou no ano que vem. Mais atual impossível.
É impossível falar do grupo TRACE sem começar por Rick van der Linden (5-Agosto-1946 – 22-Janeiro-2006). Ele nasceu perto de Amsterdã na Holanda. Aos 13 anos começou a estudar piano e depois entrou para o conservatório Haarlem, onde estudou Órgão de Tubos. Terminou seus estudos em 1967, obtendo louvor em Piano, Órgão de Tubos, harmonia e contraponto. Mas sua paixão por diversos outros tipos de música, o levou a tocar com vários músicos na própria Holanda.
Ele se tornou mais conhecido como compositor, tecladista e líder da banda de rock-sinfônico EKSEPTION, que teve carreira duradoura porém irregular desde 1967 até 2003. Aqui no Brasil ele apareceu somente quando formou o grupo TRACE (1973-1976) com o guitarrista/baixista JAAP VAN EIK e o baterista PIERRE VAN DER LINDEN. Suas composições eram invariavelmente uma combinação entre música clássica, com predominância do órgão de igreja, rock e pop.
Dito isto, parece que o primeiro álbum da banda não chamaria a atenção, entretanto, quando chegou até nós, havia o boato de que o baixista era na verdade o guitarrista JAN AKKERMAN, que saíra recentemente da banda FOCUS usando um pseudônimo. A confusão se dava pela presença do baterista, realmente ex-integrante da mesma banda. Mas eram apenas boatos em uma época em que o boca-a-boca substituía a internet.
Este disco é desconcertante. A partir das primeiras notas se ouve algo com o mesmo fogo e energia de um EMERSON, LAKE & PALMER, sem mais nenhuma similaridade além dessas. JAAP é um baixista e guitarrista superior a GREG LAKE e PIERRE um baterista bem mais modesto quando comparado a CARL PALMER, mas nesse álbum ele está diferente.
GAILLARDE abre o disco misturando o 3º movimento do Concerto Italiano de BACH com uma música tradicional polonesa e mostrando de cara a virtuosidade dos três músicos. Uma base rítmica rápida e enérgica apóia o solo de órgão; vocais femininos e masculinos e um solo de trumpete são feitos ao Mellotron revelando a dimensão sinfônica da banda. GARE LE CORBEAU é um intermeso onde JAAP faz um fantástico solo de baixo com “fuzz” e a banda retorna a GAILLARDE com PIERRE mostrando uma enorme competência poli rítmica nunca vista em seus dias com o FOCUS.
THE DEATH OF ACE é um arranjo de uma parte da suíte PEER GUNT de GRIEG após RICK visitar a casa do compositor e ter autorização para tocar em seu piano. Originalmente intitulada THE DEAT OF AASE na suíte de GRIEG, RICK decidiu alterar o nome por conta do nome escolhido anteriormente para a banda, mas que não pode ser usado por já estar registrado por outro grupo.
THE ESCAPE OF THE PIPER teve origem em um sonho de RICK onde um concerto da banda era interrompido por um som distante e não definido, então de repente gaitas de fole invadiam o palco e roubavam a música do grupo. RICK escreveu o tema e tocou as gaitas de fole, usando um aspirador de pó ligado ao contrário para fazê-las funcionar.
ONCE é construída sobre um tema jazzístico e tem o órgão da introdução, praticamente raptado pela seção rítmica em um frenético tempo.
PROGRESSION é uma longa suíte baseada em diversos ritmos diferentes e mostra uma combinação de vários instrumentos e muitos teclados sucessivamente: piano, sintetizador, Mellotron, cravo e órgão. O pesado som do baixo de JAAP abre a peça e a encerra com a inclusão do “fuzz”. É uma perfeita amostra das ambições virtuosísticas da banda, com inúmeras paradas, acelerações e mudanças de tempo.
MEMORY iniciou-se em um encontro em um hotel alemão onde RICK encontrou o guitarrista sueco do duo NOVA. Eles improvisaram tocando no saguão do hotel onde RICK havia montado seu órgão pra tocar e compor quando tivesse vontade. Ele ficou impressionado com uma canção folclórica sueca que o guitarrista lhe mostrou. Ele escreveu e arranjou a peça ali mesmo. A “canção dos pássaros” é reproduzida na introdução pelos sintetizadores.
THE LOST PAST é um ótimo solo de PIERRE, perfeitamente encaixado no todo do álbum. Um solo como ele não havia feito em nenhum álbum até então.
Jan Hammer foi por alguns anos o tecladista da MAHAVSHNU ORQUESTRA de John McLaughlin. Só isso foi o suficiente pra que as atenções estivessem sobre ele por um longo tempo, mas foi com seu trabalho na trilha sonora do seriado de televisão MIAMI VICE que o grande público tomou conhecimento do seu trabalho. Foi a primeira vez que a música atuava como um personagem. Suas entradas não eram óbvias e os temas em si tinham um toque de modernidade condizente com o ambiente da série. Quando MIAMI VICE foi filmada por Hollywood Hammer não foi sequer consultado. Esse disco mostra todo o talento dele e deixa no ar a curiosidade de como seria o filme com a música de Hammer. Quem nunca assistiu ao seriado não tem como saber que toda a trilha do filme teve inspiração direta na música de Hammer.Em 1984 ele foi chamado pelos produtores para criar a música do ainda não lançado seriado. Cada episódio era musicado como um filme independente. Sem nunca ter lido um roteiro, sua inspiração vinha ao assistir as fitas dos episódios prontos que eram enviadas de Los Angeles para ele em Nova York. Cada episódio levava de 4 a 5 dias para ter a música pronta. Logo ele tornou-se a terceira estrela do show junto com os dois protagonistas. Em novembro de 1985 esta trilha chegou ao número 1 da revista americana Billboard, feito que não acontecia para trilhas de seriados desde MUSIC FROM PETER GUNN de Henry Mancini 26 anos antes. Ouvindo-se esse disco, se percebe o tremendo trabalho de Hammer. Ele criou músicas com estilos do rock ao reggae, do clássico ao jazz além de temas tipicamente dele. Algumas músicas desse disco foram regravadas e ampliadas, como a primeira MIAMI VICE THEME e CROCKETT’S THEME, mas mantendo a atmosfera original. Aqueles que nunca ouviram o trabalho desse tecladista nascido em Praga – Tchecoslováquia - vão com certeza estranhar as inúmeras guitarras que aparecem em diversas músicas. Trata-se de uma das especialidades de Hammer, também baterista. Não que ele toque guitarra em uma guitarra. Ele consegue tirar de seus teclados, incríveis sons de guitarra. Isso faz com que alguns álbuns seus com guitarristas famosos como JEFF BECK e AL DIMEOLA se tornem tão interessantes. Neles há duelos de guitarras e teclados que mais parecem feitos por dois guitarristas. THE BEST OF MIAMI VICE funciona mesmo para os que não viram o seriado. É um disco que tem muito a ensinar sobre trilhas e como quebrar os limites do óbvio.
Anders Helmerson é um tecladista sueco que participou nos anos 70 de muitas bandas de curta duração. Depois de gastar três anos preparando e gravando seu primeiro trabalho END OF ILUSION, ficou decepcionado com o fiasco da repercussão, vendeu todos os seus instrumentos e mudou-se para o Canadá onde o foco nos “magos dos teclados” era maior. Entretanto depois de participar do selo Atlantic com várias bandas de sucesso, voltou à Suécia para estudar medicina. Nos anos seguintes, END OF ILUSION transformou-se em um tipo de cult e ele acabou assinando contrato com o selo francês MUSEA pra relançar o disco em 1995. Nos anos seguintes, ele trabalhou como cirurgião em Copenhagem e como médico de bordo em um navio de cruzeiros viajando por todo o mundo.
Confesso que encontrei este CD por um acaso mais do que absoluto. Nunca tinha ouvido falar em AZIZA MUSTAFA ZADEH e me arrependo profundamente.
AZIZA é uma pianista fabulosa. Nasceu em Baku, capital do Azerbaijão e sinceramente temos poucas notícias daquelas terras. Entretanto este álbum é de 1995 e os músicos que tocam com ela são simplesmente Al DiMeola (violões), Stanley Clarke (baixos), Bill Evans (sax) e Omar Hakim (bateria). Quando me dei conta perguntava “como eles conhecem ela e eu não?”
DANCE OF FIRE tem 11 músicas de autoria dela e os músicos estão completamente à vontade. Bem, Eles sempre estão, mas é que o que se pode notar é que a “conversa” é de iguais. Ela não está com esse time de primeira por acaso. Eles são tão bons quanto ela. O pai dela – VAGIF MUSTAFA ZADEH - era pianista e compositor, famoso por misturar MUGAN – a música tradicional de lá – com o jazz. Sua mãe era uma cantora lírica que abandonou os palcos para se dedicar à carreira da filha, que ganhou o primeiro prêmio do prestigioso concurso de piano Thelonius Monk nos EUA com o seu próprio estilo, herdado das influências diretas pai. Pianista clássica entusiasta de Chopin, ela admite que não pratica o suficiente, apensa deixa a música fluir e sua capacidade de improvisação fica clara na audição de qualquer um de seus discos.
A interação entre os músicos é fantástica. A primeira faixa (BOOMERANG) tem uma divisão que a aproxima de um tango e STANLEY faz uníssonos lindos na segunda faixa (DANCE OF FIRE), sucedido pelo violão de DiMeola. O tema é dividido harmoniosamente entre os três. SHEHEREZADE começa misteriosamente como um tema árabe, pra em seguir revelar-se uma linda balada romântica, praticamente uma valsa, ao passo que ASPIRATION tem inúmeras semelhanças com o novo-tango de PIAZZOLA. A longa BANA BANA GEL traz a bela voz de AZIZA em dueto com a improvisação do sax de EVANS sobre divisões não muito habituais. Seus vocais lembram os da cantora e também tecladista GAYLE MORAN, esposa de CHICK COREA e tecladista da MAHAVISHNU ORCHESTRA. SHADOW abre melancolicamente com o sax de EVANS e permite a AZIZA mostra seu talento na improvisação. CARNIVAL traz a voz de AZIZA em dobras, formando um coro e levanta o astral quase derrubado pela melancolia da anterior, enquanto a seguinte (PASSION) retorna às divisões arrebatadoras das primeiras faixas. Já SPANISH PICTURE permite DiMeola mostrar seu talento, apesar de ter pouco do que chamaríamos de espanhol, mas é indiscutível o tom “mouro” do tema. TO BE CONTINUED é um excelente veículo para o trio mais tradicional do jazz. Um disco tão incrível fecha com uma merecida homenagem em FATHER onde a mistura de MUGAN e jazz passariam despercebidos, não fosse esse um disco de uma pianista do Azerbaijão radicada na Alemanha.
Excelente disco capaz pegar de surpresa qualquer um, como foi meu caso.