sexta-feira, 14 de março de 2008

McCoy Tyner – Horizon

McCoy Tyner é um grande pianista que dispensa apresentações. Todos os seus álbuns são ótimos, mas esse em particular me traz grandes lembranças. A maior delas foi a de ter descoberto o violinista John Blake exatamente aqui. Entretanto, esse é um disco singular por muitos motivos. As composições de Tyner aqui tem um desenvolvimento um pouco diferente. Peguemos por exemplo a faixa de abertura. Horizon possui uma cadência forte e acentuada, repleta de sincopadas do piano do líder e ótimos solos de Joe Ford no sax alto e de John Blake no violino. Apesar da levada jazzística e da condução soberba de Al Foster na bateria, os improvisos sobre uma das figuras rítmicas do tema não era muito característicos dos discos de Tyner. Apesar do timbre do violino de Blake lembrar o de outro grande violinista, o francês Jean Luc Ponty, seu som é um pouco mais “sujo” sem se valer de recursos eletrônicos. Guilherme Franco também está presente com um curto solo de congas. O tema é de colar no ouvido e de se ficar assobiando, magistralmente exposto pelo líder e Blake, com acentuações dos metais integrados por George Adams Além do já citado Ford.

"Woman of Tomorrow", a segunda faixa abre com Tyner seguido por Blake na exposição do tema. Aqui o violino é daqueles “de chorar”, lembrando as melodias de Piazzola. Após a dramática abertura, Blake interpõe improvisos ao tema acompanhado por Ford e Adams nas flautas. Em Motherland destaca-se o baixo de Charles Fambourgh que começa sozinho aparentemente mostrando o tema, mas que na verdade é apenas uma cadência para os solos dos companheiros. Tyner faz o último solo em uma faixa repleta de energia. Uma rumba em levada rápida seria One For Honor. Pelo menos ela começa assim, novamente com o baixo de Charles. O tempo rápido é tudo o que Tyner precisa pra improvisar. Como aqui há só o trio piano baixo e bateria, fica fácil perceber a independência entre as mãos de Tyner, dando aquela gostosa sensação de dois pianos. Just Feelin’ é a última (no LP original) e poderia ser apenas “sentimento”, mas há muita técnica envolvida aqui, tanto na maestria de Tyner quanto no sax de Adams. O CD traz uma faixa bônus. Uma versão alternativa de Horizon. O disco foi magistralmente produzido por Orrin Keepnews, que revela no encarte alguns detalhes de como funcionava seu pequeno selo nos idos anos 70. Entre outras coisas, descobrimos que não há mais faixas extras porque as músicas foram gravadas direto, em apenas uma tomada. Muito, mas muito diferente dos discos superproduzidos e repletos de overdubs de outros artistas, até mesmo jazzísticos. Horizon tem quase 30 anos mas poderia muito bem ter sido produzido no mês passado ou no ano que vem. Mais atual impossível.

Trace – Rick Van Der Linden

É impossível falar do grupo TRACE sem começar por Rick van der Linden (5-Agosto-1946 – 22-Janeiro-2006). Ele nasceu perto de Amsterdã na Holanda. Aos 13 anos começou a estudar piano e depois entrou para o conservatório Haarlem, onde estudou Órgão de Tubos. Terminou seus estudos em 1967, obtendo louvor em Piano, Órgão de Tubos, harmonia e contraponto. Mas sua paixão por diversos outros tipos de música, o levou a tocar com vários músicos na própria Holanda.

Ele se tornou mais conhecido como compositor, tecladista e líder da banda de rock-sinfônico EKSEPTION, que teve carreira duradoura porém irregular desde 1967 até 2003. Aqui no Brasil ele apareceu somente quando formou o grupo TRACE (1973-1976) com o guitarrista/baixista JAAP VAN EIK e o baterista PIERRE VAN DER LINDEN. Suas composições eram invariavelmente uma combinação entre música clássica, com predominância do órgão de igreja, rock e pop.

Dito isto, parece que o primeiro álbum da banda não chamaria a atenção, entretanto, quando chegou até nós, havia o boato de que o baixista era na verdade o guitarrista JAN AKKERMAN, que saíra recentemente da banda FOCUS usando um pseudônimo. A confusão se dava pela presença do baterista, realmente ex-integrante da mesma banda. Mas eram apenas boatos em uma época em que o boca-a-boca substituía a internet.

Este disco é desconcertante. A partir das primeiras notas se ouve algo com o mesmo fogo e energia de um EMERSON, LAKE & PALMER, sem mais nenhuma similaridade além dessas. JAAP é um baixista e guitarrista superior a GREG LAKE e PIERRE um baterista bem mais modesto quando comparado a CARL PALMER, mas nesse álbum ele está diferente.

GAILLARDE abre o disco misturando o 3º movimento do Concerto Italiano de BACH com uma música tradicional polonesa e mostrando de cara a virtuosidade dos três músicos. Uma base rítmica rápida e enérgica apóia o solo de órgão; vocais femininos e masculinos e um solo de trumpete são feitos ao Mellotron revelando a dimensão sinfônica da banda. GARE LE CORBEAU é um intermeso onde JAAP faz um fantástico solo de baixo com “fuzz” e a banda retorna a GAILLARDE com PIERRE mostrando uma enorme competência poli rítmica nunca vista em seus dias com o FOCUS.

THE DEATH OF ACE é um arranjo de uma parte da suíte PEER GUNT de GRIEG após RICK visitar a casa do compositor e ter autorização para tocar em seu piano. Originalmente intitulada THE DEAT OF AASE na suíte de GRIEG, RICK decidiu alterar o nome por conta do nome escolhido anteriormente para a banda, mas que não pode ser usado por já estar registrado por outro grupo.

THE ESCAPE OF THE PIPER teve origem em um sonho de RICK onde um concerto da banda era interrompido por um som distante e não definido, então de repente gaitas de fole invadiam o palco e roubavam a música do grupo. RICK escreveu o tema e tocou as gaitas de fole, usando um aspirador de pó ligado ao contrário para fazê-las funcionar.

ONCE é construída sobre um tema jazzístico e tem o órgão da introdução, praticamente raptado pela seção rítmica em um frenético tempo.

PROGRESSION é uma longa suíte baseada em diversos ritmos diferentes e mostra uma combinação de vários instrumentos e muitos teclados sucessivamente: piano, sintetizador, Mellotron, cravo e órgão. O pesado som do baixo de JAAP abre a peça e a encerra com a inclusão do “fuzz”. É uma perfeita amostra das ambições virtuosísticas da banda, com inúmeras paradas, acelerações e mudanças de tempo.

MEMORY iniciou-se em um encontro em um hotel alemão onde RICK encontrou o guitarrista sueco do duo NOVA. Eles improvisaram tocando no saguão do hotel onde RICK havia montado seu órgão pra tocar e compor quando tivesse vontade. Ele ficou impressionado com uma canção folclórica sueca que o guitarrista lhe mostrou. Ele escreveu e arranjou a peça ali mesmo. A “canção dos pássaros” é reproduzida na introdução pelos sintetizadores.

THE LOST PAST é um ótimo solo de PIERRE, perfeitamente encaixado no todo do álbum. Um solo como ele não havia feito em nenhum álbum até então.

Jan Hammer – THE BEST OF MIAMI VICE

Jan Hammer foi por alguns anos o tecladista da MAHAVSHNU ORQUESTRA de John McLaughlin. Só isso foi o suficiente pra que as atenções estivessem sobre ele por um longo tempo, mas foi com seu trabalho na trilha sonora do seriado de televisão MIAMI VICE que o grande público tomou conhecimento do seu trabalho. Foi a primeira vez que a música atuava como um personagem. Suas entradas não eram óbvias e os temas em si tinham um toque de modernidade condizente com o ambiente da série. Quando MIAMI VICE foi filmada por Hollywood Hammer não foi sequer consultado. Esse disco mostra todo o talento dele e deixa no ar a curiosidade de como seria o filme com a música de Hammer. Quem nunca assistiu ao seriado não tem como saber que toda a trilha do filme teve inspiração direta na música de Hammer.Em 1984 ele foi chamado pelos produtores para criar a música do ainda não lançado seriado. Cada episódio era musicado como um filme independente. Sem nunca ter lido um roteiro, sua inspiração vinha ao assistir as fitas dos episódios prontos que eram enviadas de Los Angeles para ele em Nova York. Cada episódio levava de 4 a 5 dias para ter a música pronta. Logo ele tornou-se a terceira estrela do show junto com os dois protagonistas. Em novembro de 1985 esta trilha chegou ao número 1 da revista americana Billboard, feito que não acontecia para trilhas de seriados desde MUSIC FROM PETER GUNN de Henry Mancini 26 anos antes. Ouvindo-se esse disco, se percebe o tremendo trabalho de Hammer. Ele criou músicas com estilos do rock ao reggae, do clássico ao jazz além de temas tipicamente dele. Algumas músicas desse disco foram regravadas e ampliadas, como a primeira MIAMI VICE THEME e CROCKETT’S THEME, mas mantendo a atmosfera original. Aqueles que nunca ouviram o trabalho desse tecladista nascido em Praga – Tchecoslováquia - vão com certeza estranhar as inúmeras guitarras que aparecem em diversas músicas. Trata-se de uma das especialidades de Hammer, também baterista. Não que ele toque guitarra em uma guitarra. Ele consegue tirar de seus teclados, incríveis sons de guitarra. Isso faz com que alguns álbuns seus com guitarristas famosos como JEFF BECK e AL DIMEOLA se tornem tão interessantes. Neles há duelos de guitarras e teclados que mais parecem feitos por dois guitarristas. THE BEST OF MIAMI VICE funciona mesmo para os que não viram o seriado. É um disco que tem muito a ensinar sobre trilhas e como quebrar os limites do óbvio.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Anders Helmerson - FIELDS OF INERTIA

Anders Helmerson é um tecladista sueco que participou nos anos 70 de muitas bandas de curta duração. Depois de gastar três anos preparando e gravando seu primeiro trabalho END OF ILUSION, ficou decepcionado com o fiasco da repercussão, vendeu todos os seus instrumentos e mudou-se para o Canadá onde o foco nos “magos dos teclados” era maior. Entretanto depois de participar do selo Atlantic com várias bandas de sucesso, voltou à Suécia para estudar medicina. Nos anos seguintes, END OF ILUSION transformou-se em um tipo de cult e ele acabou assinando contrato com o selo francês MUSEA pra relançar o disco em 1995. Nos anos seguintes, ele trabalhou como cirurgião em Copenhagem e como médico de bordo em um navio de cruzeiros viajando por todo o mundo.

Foi assim que ele chegou ao Rio de Janeiro, cidade que passou a morar depois de largar seu emprego no navio. Com sua nova vida no Brazil, veio seu interesse novamente pela música, após 15 anos de afastamento. Junto com alguns artistas brasileiros e o apoio do selo SOM INTERIOR, ele lançou este álbum: FIELDS OF INERTIA. Gravado no Rio entre Janeiro e Junho de 2001, com gravações adicionais feitas em Cambridge (Inglaterra) e mixado em Nova York em Setembro antes de ele retornar ao Rio para masterização e lançamento em 2002. O álbum impressiona. Seja pelo uso da percussão brasileira como também pela performance de Anders nos teclados. É um disco curto, com apenas 33 minutos, mas logo fica claro que resiste a audições sucessivas, crescendo em cada uma delas. O álbum consegue a proeza de recriar a atmosfera dos anos 70 enquanto se mantém atual. A música tem um toque sinfônico tendo alguns momentos bombásticos, mas sempre com muito bom gosto.

Os instrumentos percussivos, geralmente bateria, congas e tambores, adicionam não só um toque Afro-Sulamericano mas também uma dimensão muito diferenciada. Os três percussionistas são: Célio de Carvalho, Robertinho Silva e Valmir Bessa, mas o destaque vai para o excelente baixo de Rogério de Castro. Esse trabalho pode ser comparado ao dos grandes “mestres” Rick Wakeman e Patrick Moraz. Pode-se ouvir um pouco de fusion e de música clássica aqui e ali. As melhores músicas são: a longa CITY OF A HAUTING SILENCE, WINDS OF OLODUM e INFINITE FIELDS OF INERTIA, mas o todo é maior do que a soma das partes e como estas estão muito bem amarradas, ele merece ser ouvido do início ao fim, que é quando ele realmente brilha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Aziza Mustafa Zadeh -Dance of Fire

Confesso que encontrei este CD por um acaso mais do que absoluto. Nunca tinha ouvido falar em AZIZA MUSTAFA ZADEH e me arrependo profundamente.

AZIZA é uma pianista fabulosa. Nasceu em Baku, capital do Azerbaijão e sinceramente temos poucas notícias daquelas terras. Entretanto este álbum é de 1995 e os músicos que tocam com ela são simplesmente Al DiMeola (violões), Stanley Clarke (baixos), Bill Evans (sax) e Omar Hakim (bateria). Quando me dei conta perguntava “como eles conhecem ela e eu não?”

DANCE OF FIRE tem 11 músicas de autoria dela e os músicos estão completamente à vontade. Bem, Eles sempre estão, mas é que o que se pode notar é que a “conversa” é de iguais. Ela não está com esse time de primeira por acaso. Eles são tão bons quanto ela. O pai dela – VAGIF MUSTAFA ZADEH - era pianista e compositor, famoso por misturar MUGAN – a música tradicional de lá – com o jazz. Sua mãe era uma cantora lírica que abandonou os palcos para se dedicar à carreira da filha, que ganhou o primeiro prêmio do prestigioso concurso de piano Thelonius Monk nos EUA com o seu próprio estilo, herdado das influências diretas pai. Pianista clássica entusiasta de Chopin, ela admite que não pratica o suficiente, apensa deixa a música fluir e sua capacidade de improvisação fica clara na audição de qualquer um de seus discos.

A interação entre os músicos é fantástica. A primeira faixa (BOOMERANG) tem uma divisão que a aproxima de um tango e STANLEY faz uníssonos lindos na segunda faixa (DANCE OF FIRE), sucedido pelo violão de DiMeola. O tema é dividido harmoniosamente entre os três. SHEHEREZADE começa misteriosamente como um tema árabe, pra em seguir revelar-se uma linda balada romântica, praticamente uma valsa, ao passo que ASPIRATION tem inúmeras semelhanças com o novo-tango de PIAZZOLA. A longa BANA BANA GEL traz a bela voz de AZIZA em dueto com a improvisação do sax de EVANS sobre divisões não muito habituais. Seus vocais lembram os da cantora e também tecladista GAYLE MORAN, esposa de CHICK COREA e tecladista da MAHAVISHNU ORCHESTRA. SHADOW abre melancolicamente com o sax de EVANS e permite a AZIZA mostra seu talento na improvisação. CARNIVAL traz a voz de AZIZA em dobras, formando um coro e levanta o astral quase derrubado pela melancolia da anterior, enquanto a seguinte (PASSION) retorna às divisões arrebatadoras das primeiras faixas. Já SPANISH PICTURE permite DiMeola mostrar seu talento, apesar de ter pouco do que chamaríamos de espanhol, mas é indiscutível o tom “mouro” do tema. TO BE CONTINUED é um excelente veículo para o trio mais tradicional do jazz. Um disco tão incrível fecha com uma merecida homenagem em FATHER onde a mistura de MUGAN e jazz passariam despercebidos, não fosse esse um disco de uma pianista do Azerbaijão radicada na Alemanha.

Excelente disco capaz pegar de surpresa qualquer um, como foi meu caso.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

John McLaughlin - Belo Horizonte

JOHN MC LAUGHLIN é um conhecido guitarrista que flertou com os mais diversos estilos, do jazz ao fusion, da música espanhola à indiana. O que poucos sabem é que sua esposa KATIA LABEQUE era a responsável pelos teclados dos discos e shows na década de 80.

BELO HORIZONTE é com certeza um disco que homenageia nossa terra, ou pelo menos uma de nossas cidades. Gravado em 1981 é da fase espanhola dele e traz a presença de dois tecladistas. Além da esposa, que toca piano acústico, FRANCOIS COUTURIER toca piano elétrico. Ambos dividem-se entre os sintetizadores, usados de uma forma sutil, quase orquestral, dando ao álbum uma sensação acústica. Os outros músicos são JEAN PAUL CELEA (baixo), FRANCOIS JEANNEAU (saxes), JEAN PIERRE DROUET e STEVE SHEMAN (percussão) e AUGUSTIN DUMAY (violino) e PACO DE LUCIA (violão).

O fato de o álbum ter sido gravado na França não parece ter influenciado o trabalho do JOHN, mas é clara a aproximação com o som brasileiro. A faixa de abertura é exatamente a que dá nome ao disco e mostra qual a intenção dessa banda liderada pelo irrequieto guitarrista, com os teclados funcionando como uma pequena orquestra e base para seu virtuosismo. ONE MELODY, pela introdução, poderia ser uma música brasileira, mas o andamento acelerado a aproxima das composições do guitarrista belga PHILIPE CATHERINE. Apesar de o destaque ser para o violão de JOHN e o sax de FRANCOIS, a presença dos dois tecladistas não pode deixar de ser notada em uma audição mais cuidadosa. Entretanto é WALTZ FOR KATIA o maior destaque do disco, com a presença do lírico violino de AUGUSTIN na exposição do tema e o intrincado improviso de KATIA, um pouco ao estilo de JOHN, mas mostrando que a pianista, de formação clássica, está perfeitamente à vontade no idioma jazzístico. A bela balada ZAMFIR é outra faixa onde se destaca um dos tecladistas, no caso, um solo de sintetizador de FRANCOIS, que evolui a partir da complementação de uma frase do sax e que é de uma sutileza sem par. O timbre é mais para anos 70 do que 80. Apesar de não constar da ficha técnica, é quase certo que o synth usado foi um ARP, ícone dos sintetizadores dos anos 70 ao lado do MOOG. O álbum encerra com um duo do líder com o espanhol PACO DE LUCIA, uma faixa em que me peguei imaginando em sua transcrição para piano solo.

Pois é, esse não é um disco fundamental para a discoteca dos tecladistas, mas muito interessante pra qualquer um que goste de música com sotaque espanhol e pra se apreciar o ótimo trabalho de KATIA LABEQUE e FRANCOIS COUTURIER.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Michel Camilo - Rhapsody In Blue

A música de George Gershwin marcou minha infância nos filmes da Sessão da Tarde e só depois fui descobrir que junto com seu irmão Ira Gershwin seu legado era incrível. De todas as suas músicas Rhapsody In Blue é a que mais me gosto. Talvez pela clarineta que antecipa o tema já na abertura ou pelos inúmeros desenhos animados em que ela foi usada. A Disney em “Fantasia 2000” a utilizou e dessa vez com o sentido mais próximo da intenção do compositor. Ela foi encomendada por Paul Whiteman para um concerto com sua orquestra, mas quando foi executada pela primeira vez não estava pronta e isso sempre me intrigou, porque tendo sido tocada pelo próprio George ao piano, sempre fiquei imaginando o quanto de improvisação não ocorreu naquele momento. Rhapsody foi composta como “a América (do Norte) vista de dentro de um trem”. Com isso em mente, fica claro que a clarineta da abertura poderia ser o apito do trem avisando aos passageiros da saída da composição da estação e para nós ouvintes o início de uma composição do mais alto nível. Entretanto, as interpretações clássicas sempre foram muito presas, as jazzísticas tinham mais frescor, apesar de fugirem constantemente da parte escrita.

Quando soube que Michel Camilo havia gravado esta rapsódia com orquestra, fiquei mais do que curioso. Todos os seus discos são excelentes e seu vigor nas interpretações é fantástico. Demorei pra ouvir, mas a espera foi muito recompensada, pois o disco é excelente. Credito como sendo esta a melhor interpretação desta obra até hoje. Uma interpretação não se faz apenas com o solista. A Orquestra Sinfônica de Barcelona regida por Ernest Martinez Izquierdo está soberba. A orquestra pulsa, balança, swinga, junto com Michel. A respiração de todos os músicos dá um novo tom à obra. Não se trata de uma releitura. A partitura é seguida, mas os tempos são como os que imaginava terem sido quando o próprio Gershwin executou-a pela primeira vez. A locomotiva inicia com a clarineta e vai aos poucos aumentando sua velocidade, diminui em alguns pontos e retoma o caminho como um ser vivo. A orquestra parece exatamente isso, outro músico e não um conjunto de músicos. Parece só um ser.

Ao final da audição fica uma sensação de que perdemos alguma coisa, senão a convivência com a genialidade com Gershwin, o fato de não termos presenciado tão magnífico trabalho pessoalmente. Como em todo concerto espetacular só nos resta aplaudir de pé e pedir bis.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Niacin - Deep

Niacin é um grupo típico do nosso tempo. Um trio de rock com órgão não chamaria a atenção alguns anos atrás, mas nesse século em que reverenciamos e reconhecemos a importância do passado, Niacin é um power-trio de sucesso. Formado pelo excelente baterista Dennis Chambers (Santana), o extraordinário baixista Billy Sheehan (Mr Big) é totalmente centrado no órgão de John Novello.

A lista de tecladistas que o influenciaram impressiona pelo tamanho, mas nem um pouco pelas referências. O som do grupo tem referências claras de todos eles. Só pra se ter idéia eis alguns dos citados: Keith Emerson, Rick Wakeman, Chester Thompson, Jimmy Smith, James Brown, Stevie Winwood, Jack MacDuff, Edgar Winter, Jon Lord, Billy Preston, Greg Allman, Jan Hammer, Richard Tee. Todos influentes mestres do B3. Junto com Novello, alguns outros responsáveis pelo “ressurgimento” do instrumento são também Joey Defrancesco, Larry Goldings, Barbara Dennerlein, John Madeski.

Esse resgate da majestade do instrumento torna o Niacin um grupo muito interessante. Caso não fosse ele formado por 3 ótimos músicos, seu único atrativo seria a sonoridade do Hammond B3, já que em todas as músicas, de autoria de Sheehan e Novello - no caso desse álbum - falta um pouco de melodia. Sobra ritmo e entusiasmo, mas não há muito pra assobiar nesse disco. O baixo de Billy mantém uma pulsação constante em perfeita sinergia com a bateria de Chambers, mas algo que pudesse ser identificado como tema, seguido de uma variação e um retorno, não faria nenhum mal. O que acontece é que o timbre do Hammond impera; os glisandros logo chamam a atençãol o ritmo aumenta; o pé acompanha e já esquecemos do que nos fazia falta.

Nesse disco - lançado em 2000 - Novello usa além do Hammond, apenas um piano acústico e um elétrico Rhodes, o que conferiu ao álbum uma sonoridade bastante regular e "vintage", pra usar um termo da moda.

Temas como MEAN STREET’S (do Van Hallen), BLUE-MONDO, THIS ONE’S CALLED… e PANIC BUTTOM destacam-se, sendo que esta última lembra muito uma composição de Chick Corea, provável influência, já que o álbum anterior, de 1998, foi lançado pelo selo do músico.

Apesar do Niacin ser um grupo a procura de um tema, qualquer disco dele é audição obrigatória para um tecladista, seja iniciante, avançado ou profissional. O grupo faz jus ao sucesso internacional que alcançou.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

SPIN XXI - Contraponto

A SPIN XXI é a reedição da banda SPIN que fez sucesso no circuito alternativo do Rio de Janeiro e Niterói nos anos 70. Com isso em mente, há alguma expectativa ao abrir a embalagem do novo CD – CONTRAPONTO. Estarão eles com um pé no progressivo dos anos 70 ou terão revisitado seu repertório para um som mais pop? Com apenas quatro faixas (uma com duas partes), compostas na década de 70 e arranjadas no mesmo espírito e sonoridade, não há muito do que duvidar: legítimo progressivo ano 70. Logo nos primeiros acordes já se sabe a que veio. Profusão de hammonds. moogs e outros teclados com a sonoridade da época. Guitarras “chorosas” e baterias “nervosas”. As faixas são longas, como determina um dos postulados do rock progressivo, mas nem por isso perdem a pulsação. A banda é composta por Tatoo Magdalena (guitarras, violões e vocais), Eraldo Márcio Corrêa (teclados), Sylvio Sá Corrêa (bateria e percussão), Marcelo de Alexandre Venâncio (baixos, pedais, violões e vocais) e Kakao Fugueiredo (vocais e instrumentos incidentais). É exatamente sobre este último que recai a responsabilidade de retirar a banda do universo comum das boas bandas do neo-prog, movimento com o qual a SPIN XXI poderia ser facilmente confundido. Procurei um adjetivo que melhor traduzisse sua interpretação e enquanto ouvia o CD no carro, meu filho comentou: “Dramático esse cara!”. Pois é, os vocais são revestidos de uma dramaticidade e de uma teatralidade que remonta ao Gênesis era Peter Gabriel, mas sem cópias, apenas boas lembranças. Como eles mesmos dizem, depois de muitos anos na geladeira, o sonho ressurgiu. Foram quatro anos de ensaios e gravações para que o SPIN XXI retornasse aos palcos, com mais vigor e experiência e com uma bela mistura de rock, jazz, música clássica, música brasileira, folclore, country, folk e música antiga, além é claro do rock progressivo, que parece estar cada vez mais conquistando novos espaços e novos fãs. Para os que não conheceram o SPIN nos anos 70 aí está uma ótima oportunidade de conferir o retorno da banda, agora SPIN XXI.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Diapasão – Opus 1

Diapasão - Opus 1 - é praticamente o tecladista Rodrigo Lana, mas a rigor é um trio mineiro de rock progressivo com fortes influências de ELP, música clássica e toques de jazz. Formado por Rodrigo Lana (teclados), Gustavo Amaral (baixo e violão), Fabiano Moreira (bateria). Os teclados imperam durante todo o disco lembrando ora Rick Wakeman ora Keith Emerson. Mas não é um mero pastiche. Com clara influência clássica, eles contam com o apoio de Pedro Moreira (percussão), Ayran Oliveira (violinos) e Sergio Rabello (Cello) para criar um álbum criativo e muito interessante, com músicas longas, bem ao gosto dos progressivos, mas também com pequenas pérolas mais curtas. O álbum abre com a pomposa e longa DIAPASÃO, onde logo se percebe o talento de Rodrigo ao piano e sua capacidade inventiva, alternando timbres de cravo e cordas. Exatamente no cravo que nos vem à mente o mestre Wakeman, mas a divisão dessa música é bem diferente das composições deste. Logo após uma curta introdução, o piano assume a frente expondo uma nova melodia para aí sim prestar o que poderia muito bom ser um tributo ao citado mestre. Perto do fim ela se transforma em um tema típico do Emerson Lake & Palmer. No segundo tema, SOM DO BRASIL, Gustavo troca o baixo pelo violão pra expor uma bela e lírica melodia. São acompanhados pela percussão de Pedro Moreira. Sonata é uma música com toques clássicos como o título sugere. DO CÉU AO INFERNO continua no clima com a participação de um “quarteto” de cordas e FUGA apesar de seguir a mesma linha, com cravo e violão, funciona como uma introdução apara a poderosa NOITE A LA CAIPIRINHA, onde as lembranças da excelente banda alemã Triumvirat vêem à mente. JAZZ e PICCOLO FINALE iniciam ambas com o baixo de Gustavo e a última soa muito mesmo como um tributo a ELP, nas músicas como BENNY THE BOUNCE. As semelhanças indicadas aqui de maneira alguma desmerecem o álbum, pois estar perto dos mestres é algo extremamente difícil. Este belo álbum, com excelente material gráfico e lançado pela Masque Records, com certeza agradará aos fãs do rock progressivo e àqueles que querem expandir um pouco os seus horizontes musicais.

Evans, Evans, Evans & Evans

O pianista Bill Evans não é único, pelo menos no nome. Existem mais três. Em 1983 encontrei em uma loja de Copacabana (RJ), o LP ETUDES do RON CARTER com os seguintes músicos: BILL EVANS, ART FARMER e TONY WILLIAMS. Comprei o disco principalmente por causa do BILL. Mas não prestei atenção nas datas e só em casa percebi que não havia piano no disco - Evans faleceu em 1980. RON era o baixista, TONY o baterista, ART o trompetista e havia um saxofonista de nome BILL EVANS. THE PENGUIN GUIDE TO JAZZ, informa ser ele o terceiro BILL EVANS a usar esse nome. O segundo BILL EVANS (nascido em 1921) - sax, flauta, oboé e outros tantos além de vocal - adotou o nome muçulmano de YUSEF LATEEF, eliminando qualquer confusão entre ele e o pianista. A seguir uma pequena discografia de alguns desses BILLS.

BILL EVANS (3) nasceu em 1958 e integrou uma das muitas formações do grupo de MILES DAVIS. Trabalhou com JOHN MACLAUGHLIN e HERBIE HANCOCK. Seu timbre é quase uma combinação de PAUL DESMOND com MILES DAVIS, principalmente pela ausência de vibrato. Muito inventivo em seus solos, está mais para o fusion de MILES. Gravou alguns discos de ACID JAZZ, misturando jazz e RAP.


BILL EVANS (4) é um excelente banjoísta (se é que este mesmo o termo), bastante inventivo e criativo que toca “bluegrass”. Os instrumentos de seu disco NATIVE & FINE (ROUNDER CD 0295 – 1995) são banjo, rebeca, violão, baixo e tábua de lavar roupa como percussão, ou seja, bluegrass tradicional. Os músicos que o acompanham formam uma excelente banda de apoio ao solista. O CD vale a pena ser ouvido pelos que gostam do gênero ou não, porque a comparação com a música Celta é inevitável, já que o bluegrass é seu descendente direto no Novo Mundo.

BILL EVANS (2) ou YUSEF LATEEF tem álbuns muito interessantes, como YUSEF LATEEF’S LITTLE SYMPHONY (ATLANTIC 781757 - 1987) onde ele toca todos os instrumentos, HEART VISION (YAL 900CD – 1991) e METAMORPHOSIS (YAL 100CD – 1993) ambos pela sua própria gravadora, onde lançou 6 CDs e mantém plena atividade. Com a mudança de nome, possíveis confusões foram evitadas, mas foi por motivos religiosos. Não sei como seria se usasse seu nome de batismo, pois ambos são contemporâneos.

A capa do BILL EVANS (1) é do álbum SYMBIOSIS, composto, arranjado e conduzido pelo grande maestro CLAUS OGERMAN, um dos grandes arranjadores do jazz. Neste álbum com orquestra e trio, BILL dá mostras da sua incomparável competência. São ao todo cinco faixas abrangendo dois movimentos. Mais uma vez ele nos presenteou com um álbum essencial.

Keith Jarrett – The Carnegie Hall Concert

Existem discos que temos que ter por serem representativos de um determinado movimento, estilo ou artistas. Existem outros que temos que ter pelo seu próprio valor. “Keith Jarrett – The Carnegie Hall Concert” (2005/2006) com absoluta certeza encontra-se na segunda categoria. Jarrett é um artista único, polêmico em suas declarações e de talento indiscutível ao piano.

Este disco o traz em um dos seus contextos favoritos, o da improvisação solo, onde ele retoma uma prática comum do mundo clássico e recria de forma única a própria improvisação jazzística. Desde que fui atingido pelo seu “Köln Concert” de 1975, que fico estarrecido com sua criatividade e inventividade a cada novo lançamento. São vários seus álbuns seguindo esta linha, mas “The Carnegie Hall” é um dos melhores, não superando apenas o de Köln. Em uma antiga entrevista, Jarrett explica que procura limpar sua mente antes de sentar ao piano e provavelmente antes mesmo de entrar no palco. O que destaca esse disco dos outros são as melodias que são construídas, as vezes lentamente, outras vezes aparentemente do nada. Não é só uma. São várias. Ele pode lançá-las sobre um pulso constante de sua mão esquerda ou em um clima pastoral.

“Carnegie” é dividido em 15 faixas, ao contrário dos outros discos com penas duas ou quatro faixas. Desde que foi afetado por síndrome de fadiga crônica, ele teve que se reinventar. Substituiu suas longas performances por temas menores e com isso tornou-se muito mais acessível. As 10 primeiras são o próprio “Carnegie Hall Concert”. As cinco restantes são músicas suas, como “The Good América”, “My Song” e “Time on My Hands”. Jarrett é conhecido por exigir silêncio absoluto durante seus concertos e em sua apresentação solo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a platéia era “convidada” logo na entrada a desligar o bip dos relógios digitais da época, que apitavam irritantemente a cada hora. Hoje com os celulares o “convite” deve ser ainda mais rigoroso, mas é absolutamente imperdível o que este talentoso músico faz no palco e poder ouvir suas performances pelo mundo um raro prazer.

Tony Banks - Seven

Conhecido como o tecladista do Genesis, Tony Banks sempre foi fascinado pela idéia de escrever música orquestral. Cinco das sete partes desta Suíte Orchestral foram escritas especificamente para o projeto SEVEN. Durante os sete movimentos, Tony Banks cria retratos orquestrais intensos. A serenidade que caracteriza os temas principais é contrastada por momentos de incômoda turbulência, mas sempre com resultados bastante interessantes, o que o torna em seu melhor trabalho solo. Geralmente, o acusado pela banalização da música do Gênesis é o baterista/cantor Phil Collins, mas basta ouvir os trabalhos pop do baixista Mike Rutherford ou de Banks, para perceber que a saída do universo progressivo se tratou de uma decisão conjunta. Banks nunca teve problema em assumir um papel aparentemente secundário. Banks nunca foi dado aos holofotes como Keith Emerson e portanto não é de se estranhar que venha com algo não tão pianístico. Ambos são excelentes pianistas, talentosos tecladistas e grandes compositores, mas os estilos completamente diversos, Banks não é dado a muitos solos e isso se repete em SEVEN. Este é um álbum no qual Banks transcende seu passado e cria a música madura de Ralph Vaughn Williams e de Edward Elgar.

Os sete temas – como antecipa o nome do álbum - são executados pela London Philarmonic Orchestra e pelo tímido Tony Banks ao piano, sempre muito discreto, o piano como integrante da orquestra e não um solista frenético envolvido ou protegido pela orquestra. Em suas notas, Banks diz que no estúdio, o tempo que gastava com o Gênesis para ter ao menos os instrumentos prontos era o mesmo no qual os músicos da orquestra esperavam já terem gravada uma música de 20 minutos que eles nunca ouviram. Segundo ele isso foi algo inesperado e após gravar quatro músicas, resolveu fazer uma pausa e retornar melhor preparado, com outro orquestrador e mais apto a encarar a orquestra. Não é trabalho de um instrumentista, mas sim de um compositor maduro e isso pode frustrar algum fã mais ardoroso Um disco para quem gosta de música, pra quem é curioso ou pra quem é fã de Tony Banks.

Chick Corea - Secret Agent

Esse álbum do Chick Corea demorou muito pra aparecer em CD. Essa versão praticamente recria a glória do som original. Chick Corea é um artista com uma extensa discografia. Quase toda, diria que 99% de altíssima qualidade. Não entendia porque um disco tão bom estava esquecido. Mas finalmente resolveram lança-lo. É um disco bastante eclético, como o próprio Chick e um item obrigatório pra qualquer apreciador do tecladista. Como diz no site do artista, poucas pedras “estilísticas ficam no mesmo lugar”. Aqui ele destila tudo o que sabe de rock progressivo, fusion, “bombastic esoteric funk” e seu sempre presente enfoque não convencional para a música latina. Músicas clássicas dele como "Slinky", "Fickle Funk" and "Central Park" além de participações especialíssimas de músicos como Al Jarreau, nosso Airto Moreira, Bunny Brunel, Gayle Moran (esposa, exímia tecladista e cantora). O disco soa muito bem, principalmente em passagens repletas de instrumentação variada como é o caso de “Central Park”. “The Golden Dawn” é a grande faixa de abertura e não poderia começar melhor, introduzindo o ouvinte ao universo sonoro da viagem que se seguirá. “Mirage” e “Bagatelle #4” – esta de Bella Bartok – são os momentos mais tranqüilos do disco, mas não menos carregados de emoção, excelentes duetos de Chick com Jim Pugh (trombone na primeira) e Gayle (vocais/coro na segunda). “Glebe St.Blues” é um blues em tempo rápido com ótima participação do naipe de metais, integrado pelo já citado Jim Pugh, Ron Moss, Bob Zottola, Al Vizzuti e o saudoso Joe Farrel, acrescidos de um quarteto de cordas que somente Chick Corea seria capaz de encaixar magistralmente em um arranjo. A faixa com Al Jarreau (“Hot News Blues”) é um blues lento cheio de surpresas. “Drifiting” é uma excelente composição perfeita para mostrar toda a qualidade de Gayle como vocalista. O disco fecha com Central Park. Mais que uma música é uma celebração à diversidade. As intervenções do quarteto de cordas são magistrais e o “duelo” com o trumpete de Al Vizzuti nos leva a concluir que ali o instrumento foi novamente redefinido. As notas agudas que ele aos poucos vai buscando – e achando – criam uma tensão realmente indescritível. Outro grande destaque é para o baixo de Bunny Brunel, excelente músico da escola de Jaco Pastorius, mas que assim como o mestre, tem um timbre muito particular em seu instrumento. Lançado originalmente no Japão está disponível agora no site do artista a um preço bem mais acessível.

Peter Baumann - Romance 76

Confesso que comprei esse LP mais pela capa do que pelo som. Estávamos em 1976 e o máximo de informação que conseguíamos era de que se tratava de um dos integrantes do Tangerine Dreams. Quando cheguei em casa e coloquei pra tocar tudo mudou. Enquanto era membro do grupo alemão, Peter Baumann lançou esse seu primeiro disco solo: Romance '76. Não é muito distante do som que o TD produzia na época, de fato há referências a Rubycon, Ricochet e Stratosfear aqui e ali – mas os arranjos de Baumann adicionaram clareza e direção. Em músicas como "Phase by Phase," o resultado é até circunspeto e abre muito espaço para uma atenção mais criteriosa pelo ouvinte. Mas no resto do álbum, encontramos Baumann com total controle sobre o que ele quer que o ouvinte ouça. Por exemplo, "Romance" introduz cuidadosamente novos sons, calculados com precisão para produzir os efeito desejado, um estilo que iria aparecer na produção de Baumann Grosses Wasser para Cluster. Esta e a faixa de abertura "Bicentennial Present" são típicas do que se produzia nos anos 70 como “música eletrônica”. A última especialmente parece com as melhores partes de "Stratosfear" destilada. Baumann mostra diferentes estilos de música eletrônica nas primeiras tres faixas, somente desafiando as expectativas do ouvinte com a semi-clássica "Meadow of Infinity." Onde misturou instrumentos orquestrais (cellos, vozes humanas, percussão) e eletrônicos, o compositor cria um poema sonoro usando apenas os sons necessários para descrever a ação. De muitas maneiras, "Meadow of Infinity" (junto com "The Glass Bridge," que conecta as duas partes) transcende o que Tangerine Dream era capaz de fazer, assumindo grande controle sobre a jornada do ouvinte do ponto A para o B, eliminando sons desnecessários. Claro que ouvintes atentos não se surpreenderão que Romance '76 é menos “cheio” do que os álbuns do Tangerine Dream desse período, mas isso é o que produz o mesmo efeito sem sequencers e camadas e mais camadas de sintetizadores. Definitivamente uma boa escolha para os fans do TD que pretendem alargar seus horizontes sem ficarem presos a faixas de 30m ou ao que se chamou depois de Euro-disco.